Mostrando postagens com marcador Textos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Textos. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

A vingança do colesterol


Um dia cansei-me de querer ser magro. Ou ficar magro por um longo período de tempo, já que o gordo é sempre gordo, não importando quantos quilos ele esteja pesando e esta inexorabilidade genética sempre vence.
Não se luta contra o DNA. Não com esperança de vencer.
Quem não se lembra das aulinhas de genética onde o professor ensinava que o fenótipo é a representação física daquilo que o genótipo programou como surpresa para você? E você se mira frente ao espelho, vê o diâmetro do seu fenótipo e nota que este tal de genótipo lhe pregou uma bela peça.
É ele que molda o seu rosto, que colore seus olhos e também que determina as preferências e dimensiona a voracidade do seu apetite. E o que seu organismo faz com tudo aquilo que você engoliu.
Este pesado fardo genético você vai arrastar pela vida afora na forma de gordura localizada, celulite, pneus, dobrinhas, barriga e... banha mesmo.
E atendendo aos impulsos deste DNA esfomeado você segue comendo, devorando tudo que lhe oferecem, sempre querendo mais, sem nunca conseguir saciar esta fome atávica.
Num mundo que valoriza a longelinidade como modelo de um corpo perfeito, a esfericidade dos corpos obesos pode constituir um problema estético e outro psicológico, alem do espacial, pois você ocupa mais espaço que aqueles magrelos e tem que se espremer para passar num mundo feito para magros. O problema estético está na cara, aliás, está na cara, na barriga, no culote e em todas as protuberâncias impugnadas pela nossa cultura e o psicológico reside na culpa de não conseguir se enquadrar às imposições desta sociedade opressora.
Mas a vingança dos gordos será muito maior do que a imposição ao mercado da calça com cós de elástico e a abolição definitiva da lycra e do suplex, pois num mundo com uma produção excedente de alimentos e uma indústria crescente fabricando cada vez mais alimentos com altos teores de gordura e carboidratos e a publicidade promovendo a venda destas guloseimas, logo a maioria da população será de gordos e o mundo terá que se adaptar a esta nova realidade e então tudo será maior e mais espaçoso e os magros é que terão que levar suas calças até a costureira para serem ajustadas ao seu corpo e serão eles os apontados durante o jantar pelos gordos enquanto comentam, entre uma garfada e outra:
_Olha só que horror, este deve ser mais um daqueles que não comem nada o dia todo!
E ainda o usarão como exemplo para os filhos dizendo que se não comerem aquele X-bacon duplo com catupiry, ficarão iguais a ele, magro e esquálido. Envergonhado com sua incapacidade de se adequar aos novos padrões, o magro terá que recorrer às lojas especializadas que surgirão para fornecer roupas com enchimento interno para arredondar sua silhueta repulsiva. Mas será logo desmascarado, um gordo autêntico só se faz com anos a fio de ingestão de muitos doces, sorvetes, massas e gordura animal. E prisão de ventre.
Não é para qualquer um.





quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007

Não é engraçado mas é muito boa!

"...o tempo é uma invenção da morte:
não o conhece a vida - a verdadeira -
em que basta um momento de poesia
para nos dar a eternidade inteira."

(Mário Quintana, em Ah! Os relógios)

quarta-feira, 17 de janeiro de 2007

Papo sério: Cidade Limpa

A cidade de São Paulo começa o ano de 2007, colocando em prática um ambicioso projeto de lei, denominado Cidade Limpa, que obriga a retirada de outdoors, placas e outros aparatos de publicidade que infestam toda a cidade. O projeto, rigoroso e radical, foi aprovado por unanimidade na Câmara e obteve amplo apoio da população; evidentemente, sofre agora o ataque do poderoso grupo de empresas que explora a publicidade externa na cidade de São Paulo e que, através de recursos jurídicos, busca inviabilizar sua aplicação. Mas para a que a situação chegasse a este ponto, é preciso reconhecer que o limite de tolerância quanto à utilização do espaço visual público foi desafiado ao extremo e a situação caótica resultante começa a ser percebida por uma camada mais ampla da população, que antes apenas absorvia passivamente a publicidade.

No mesmo caminho de degradação visual, a cidade de Passos vive, há alguns anos o crescimento desenfreado da publicidade externa. Pouco a pouco, cada centímetro disponível na cidade vem sendo ocupado com placas de outdoors, painéis de prismas giratórios, painéis digitais, imensos painéis de fachada, além do sem-número de placas de quinta categoria esparramadas por todo o perímetro urbano.

Dezenas de placas de outdoor poluem as nossas ruas com suas estruturas caquéticas, mal-acabadas, imundas e sobre as quais raramente se colam peças com alguma qualidade de impressão; e isso para não enveredar pela seara do conteúdo. Os triedros, painéis formados por prismas giratórios, se multiplicam; onde houver uma empena de um edifício, onde houver uma marquise, pronto, está instalado um outdoor que vale por três. Logo serão substituídos pelos painéis digitais, que exibem imagens em movimento, quase uma televisão. Sem som, por enquanto, que é para não atrapalhar os carros, caminhões e motos volantes.. Esse aparato high-tech, à medida que se torna obsoleto e sem apelo nos grandes centros, é revendido a preços convidativos para mercados emergentes. Imagine agora, que serão proibidas em São Paulo e em outras cidades que estão se despertando para o bom senso urbano. Preparem-se uma derrama de parafernálias de comunicação nas suas cabeças.

A primeira vista, pode parecer uma “mudernidade” um painel fotográfico front-light, ocupando toda a lateral de um edifício no centro da cidade, conferindo um ar de capital, de Times Square, coisa de outro mundo. Como artista gráfico, admito que as peça seja chamativa e tenha impacto visual, mas como arquiteto, vejo uma agressão a um edifício que, ao contrário, merecia ter suas características modernistas valorizadas, recuperadas. Imaginem se cada condomínio da cidade se encantar com as merrecas recebidas pela cessão de suas empenas cegas ou de seus topos...Banco do Brasil, Credireal, Galé, Angelina e José, José e Lucila...Se os “predinhos” de 3 andares aderirem, então, vai ser uma verdadeira revista em 3D.

Seria muito útil que os vereadores – pelo menos aqueles que ainda se preocupam um pouco com o futuro da nossa cidade – dessem uma lida nos propósitos e medidas propostas pelo Projeto Cidade Limpa e refletissem um pouco sobre este tema. Vão ouvir a lamúria daqueles que sobrevivem deste mau uso do espaço urbano, dizendo que empresas vão fechar, que empregos serão extintos, que famílias vão passar fome, enfim, argumentos semelhantes aos daqueles que defendem os bingos, o jogo de bicho ou o comércio clandestino. Outros, mais prolixos, vão dizer que a publicidade faz parte da linguagem urbana do século XXI e que seria um retrocesso a proibição. Mas não haverá quem, ainda que no íntimo, não reconheça a necessidade de um controle mais efetivo sobre o caos visual que se vem se instalando e que ainda pode piorar muito.
Não defendo a proscrição da publicidade externa, a purificação total da cidade, que ficaria monótona e chata, mas entendo como necessária uma intervenção radical, como a da Lei Cidade Limpa, até que se encontre uma forma isenta de análise de cada situação, independente de influências políticas ou econômicas.

As cidades precisam voltar a se enxergar, a conhecer a imagem que realmente têm, as características cobertas pelas placas e sobretudo os defeitos que estas placas eventualmente ocultem. Talvez assim, consigamos enxergar o estado decrépito em que se encontram muitas regiões de nossa cidade, o abandono de algumas praças e construções e cobremos ação das autoridades competentes. E então, quem sabe um dia, as pessoas voltem a se preocupar com o visual das construções que erguem, para que valorizem o ambiente urbano ao contrário do que fazem os inúmeros puxadinhos e meias-águas que se vê por Passos. Não vai ser apenas investindo em obras vistosas que a Prefeitura vai mudar a cara da nossa cidade; é preciso investir em conservação, em fiscalização, em regulamentação. Tudo isto ajuda a formar aquilo que realmente faz a diferença: a consciência da responsabilidade de cada cidadão.

Ivan Vasconcellos - Arquiteto

quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

Rebelde


_O que é que eu faço com este menino doutor?
O psicólogo, detrás de sua mesa de madeira escura, com o queixo apoiado nos dedos entrelaçados, olhava calmamente para a mãe desesperada e para o filho impassível sentados à sua frente.
_E então doutor, o que eu faço? Isso não pode continuar assim! A mãe levava as duas mãos ao rosto cobrindo os olhos e meneava a cabeça, demonstrando sua profunda insatisfação com a conduta de seu filho.
_Calma minha senhora, não é tão grave assim!
_Como não é grave, doutor! Ele tem 13 anos e faz uma semana que nem liga o computador
_Uma semana inteira? O que há com você, rapaz?
E a mãe, entre soluços
_Nem orkut ele tem!
A expressão do médico mudou sutilmente. Ele continuava tranqüilo atrás de sua mesa, mas agora era uma tranqüilidade profissional. Ele sabia que havia algo errado ali, um perigo em potencial: A quebra de um paradigma. E a quebra de um paradigma é como a quebra de um átomo, por menor que seja, libera uma energia praticamente incontrolável.
O doutor levantou-se e convidou o jovem a deitar-se no divã e pediu delicadamente que a mãe os deixasse a sós.
A mãe retirou-se, contra a vontade, mas antes de sair disse ainda:
_Eu sabia que era grave, nem o nome dos Power Rangers ele sabe! Pode perguntar! Pergunte qual é o nome do Ranger vermelho, pergunte para o senhor ver!
Fechando a porta do consultório e construindo um sorriso com qual pretendia encarar o rapaz, o psicólogo dirigiu-se à cadeira que ficava ao lado do divã onde o paciente o aguardava. Sentou-se, apanhou uma caderneta e uma caneta e disparou:
_Diga-me, rapaz, você sabe o nome dos Power Rangers?
_Não! Disse simplesmente o garoto.
_Como se chama o melhor amigo do Bob Esponja?
_Sei lá! Quem é Bob Esponja?
A mãe tinha razão, pensou o médico, enquanto tomava notas, parece mesmo ser um caso grave.
_Qual é o seu E.mail?
_Eu não tenho E.mail, prefiro escrever cartas.
_MSN?
_Também não! Prefiro conversar com as pessoas frente a frente, para perceber suas emoções e reações.
_Qual é o seu programa de TV preferido
_Não assisto muito a TV, prefiro a leitura, mas o Discovery channel e o National Geografic são legais!
_Qual é a dupla sertaneja de sua preferência?
_Prefiro jazz
_Nike, And 1, Zoomp ou Fórum? Com qual destas marcas você se identifica mais?
_Para mim o valor simbólico associado a estas marcas não justifica o alto preço dos seus produtos! E a perspectiva desta análise não é a parcimônia, mas sim a sensatez.
Esse menino vai me dar trabalho, ponderou o médico. Vai ser difícil sociabilizá-lo, resgatá-lo de sua individualidade e trazê-lo de volta aos padrões normais de convívio de nossa sociedade hipócrita e consumista.
Voltaram para a mesa e com um toque no interfone, o médico ordenou que a mãe entrasse e indicou-lhe a cadeira ao lado de seu filho, onde antes já estivera sentada.
_E então doutor, é grave? O senhor perguntou para ele o nome dos Power Rangers?
_Calma, disse o médico, trata-se apenas de um caso de rebeldia adolescente, e ele logo estará curado se seguir à risca o tratamento que vou prescrever.
Anotou com garranchos no bloco de receitas os procedimentos que deveriam ser observados de agora em diante:
Três horas de TV por dia (no mínimo), Lan house três vezes por semana jogando Mortal Kombat deception, Counter Strike – condition zero ou GTA e ouvir Calypso e Latino todo santo dia, sem esquecer da internet de madrugada.
A mãe se esforça, vigiando e exigindo o cumprimento de todos os itens do tratamento sugerido pelo médico. Outro dia até comprou um CD de funk para o filho na esperança de abreviar o tratamento.
O menino, metódico por natureza, cumpre os horários e segue as indicações do médico, mas continua lendo Dostoievski escondido. E no original.
É um caso perdido!














 

sábado, 23 de dezembro de 2006

Conto de natal



Criança tem cada uma, pensou o pai do Gustavo, quando o menino de cinco anos disse-lhe que gostaria de ganhar como presente de natal uma chaminé.

-Chaminé, meu filho? Estranhou o pai.

-É, pai; Sem chaminé, como é que o papai noel vai entrar e deixar os presentes?

O pai disse que o papai noel sempre conseguia uma forma de entrar nas casas para presentear as crianças que foram obedientes e boazinhas durante todo o ano e que, além disso, certamente não haveria chaminés de brinquedo para vender.

-Mas eu quero uma de verdade, daquelas de tijolinho, pai!

-Só quem tem lareira em casa é que tem uma chaminé dessas! Tentou argumentar o pai

-Uma lareira neste canto da sala ficaria lindo, disse a mãe, que ouvia a conversa calada até aquele momento.

-Ai! Suspirou o pai, prevendo a derrota iminente agora que eram dois contra ele.

-Reforma faz uma bagunça em casa, gente!

E a mãe e o Gustavo, ali, irredutíveis.

Contratou um arquiteto e com o projeto em mãos, pôs-se a procurar um bom pedreiro para executar a obra e realizar o sonho de seu filho.

Não imaginava ser tão difícil conseguir um profissional para construir uma chaminé. Todos aqueles que conhecia estavam ocupados trabalhando em outras obras e enquanto ele procurava o tempo ia passando e dezembro se aproximando, e o filho cobrando, e a esposa dizendo que ele havia prometido e que desse um jeito de construir essa chaminé, senão o filho ficaria frustrado e de repente tocou a campainha.

Ele mesmo atendeu. Era um senhor já de idade que disse ter ficado sabendo que ele queria construir uma chaminé com lareira para o filho, que era especialista e já construira várias em sua terra natal, um país frio da Europa, e que agora, no Brasil, continuava trabalhando, apesar da idade, apenas como hobby. E disse também que forneceria todo o material necessário à construção, pois fazia questão que só fossem utilizados materiais de primeira qualidade.

Combinaram o preço, que pareceu bem razoável e o pai do Gustavo, respirou aliviado.

No outro dia, bem cedinho, o velhinho estacionou sua camionete antiga na porta da casa e começou a descarregar os materiais. Fazia tudo devagar e sozinho e como num passe de mágica a lareira começou a brotar do chão. Saía na hora do almoço, voltava com mais tijolos, pedras e trabalhava até a noitinha. E assim os dias foram se passando e a chaminé subindo. Seguia o projeto, mas acrescentava detalhes decorativos de indiscutível bom gosto por conta própria.

Toda a família estava encantada com a obra e impressionada com a rapidez da sua execução. O pai dizia que todo pedreiro deveria trabalhar assim; a mãe elogiava a beleza da lareira e a empregada, o cuidado do velho com a limpeza. Nem pó havia! E o Gustavo afirmava que tinha visto duendes ajudando o Sr. Claus.

-Sr. Claus? Disseram o pai e a mãe ao mesmo tempo. Só agora se lembraram que sequer haviam perguntado o nome do construtor.

Ele era um senhor de cabelos brancos, muito simpático e sorridente. Gostava muito de conversar com o Gustavo e ria muito das perguntas que o menino fazia enquanto trabalhava.

Um dia, mexendo em sua caixa de ferramentas o garoto encontrou, entre martelos e talhadeiras, uma peça dourada, muito brilhante, com cabo de madeira e perguntou ao Sr. Claus o que era aquilo. Ele limitou-se a dizer que era uma sineta que ele usava em outro serviço que fazia há muito tempo.

Na antevéspera do natal a chaminé estava pronta. Os tijolos, de uma simetria espantosa, brilhavam com o verniz recém aplicado, no aparador da lareira, a pedra negra trazia nas bordas entalhes de símbolos natalinos e a grelha, trabalhada em arabescos, reluzia no seu interior.

Maravilhados com o resultado todos elogiaram o trabalho do Sr. Claus, que agradeceu sorrindo – HO-HO-HO - e disse que sairia para o almoço e voltaria mais tarde para fazer o acerto.

Nunca mais apareceu. Sumiu como se nunca houvesse existido, deixando no vazio de sua ausência, admiração e perplexidade.

Mas o Gustavo jura que na noite do natal ouviu com seus ouvidos inocentes um ruído. Levantou-se, e pé-ante-pé, foi até à sala e viu o Sr. Claus colocando doces nas meias dependuradas na lareira.

-Sr. Claus?

-Esqueci algumas ferramentas aqui e vim buscá-las. Feliz natal, Gustavo!

-Feliz natal, Sr. Claus! E correu até a janela a tempo de ver o trenó puxado pelas renas se afastar.

Mas pouca gente acredita nele.









 

quarta-feira, 29 de novembro de 2006

CHATO

No texto anterior, um velho resolve dispor da própria vida numa noite fria, escura e tempestuosa depois de confrontar seus sonhos com a realidade que vive. É um texto amargo e não tem graça nenhuma.

Mas depois da tempestade vem a bonança!

_Ou a enchente, disse o pessimista!

_Suma daqui, ô uruca! Hoje só queremos saber de otimismo, diversão e alegria.

_ É! Disse outro. E para celebrar a alegria nada melhor que uma boa anedota de Português!

_Mas o que adianta uma piada se o Stanley ou o Leo não estão aqui para contá-la pra gente? Não vai ter graça nenhuma!

Era ele de novo. Enchendo o saco da turma, com seu mau humor.

_Desaparece daqui, ô gangorra!

O pior é que o chato nunca se manca. Ele se acha um bom papo e uma ótima companhia.

O Osvaldo Montenegro, em uma de suas músicas, declara que todo chato é bonzinho e que você o reconhece quando, ao ser educado, diz para ele: _Passa lá em casa! E ele passa! Pergunta como ele tem passado e ele explica!

E ele continua ali cutucando a gente e falando tão de perto que você sente seu hálito e é atingido continuamente pelos pertigotos lançados junto com comentários inadequados.

E para surpresa geral, agora é ele, o chato, que começa a contar uma piada sem graça, que leu na besteiroteca do blog do Váscoli, e quando termina, ri sozinho e ainda pergunta, com ar de superioridade, já que ninguém riu.

_Não entenderam. E fica dizendo, _Hein? _Hein? Enquanto acerta o fígado de quem está ao seu lado com os cotovelos.

_Sai fora, ô desmancha rodinha!

_Calma, tenha um pouco de paciência, diz alguém. Ele é chato, mas até que é bonzinho!

Ta vendo como o Osvaldo tinha razão? Os chatos se multiplicam porque são tratados com indulgência. É uma praga que encontra um terreno fértil na compaixão humana. Estão por todo o lado, inclusive atrás de você. E passam a mão na sua bunda.

_Eu vou dar um pau nesse cara!

Mas quando você se vira ele já está do outro lado importunando outra pessoa com seu imenso repertório de chatices. Puxa a cueca de um, oferece cigarros que explodem, joga bolinhas de papel no decote das mulheres e puxa a cadeira quando alguém vai se sentar.

No fundo ele é um solitário que se diverte com as pequenas tragédias que provoca. Precisa das pessoas para compor as personagens de sua insípida cena diária. Comanda um pequeno show de humor onde ele é, a um tempo, diretor, ator e platéia. E como ele adora aplaudir a si mesmo!

Às vezes suas gracinhas passam do limite do tolerável e quando você ameaça esganá-lo com as próprias mãos, um amigo intercede e diz:

_Tenha paciência, podia ser pior!

_Impossível!

_Outro dia ele me convidou para assistir ao DVD do casamento dele!

_Eca!!!!!!!!!!

sexta-feira, 24 de novembro de 2006

Suicidário

Por Magela Oliveira

Era noite e chovia. Torrencialmente. Uma noite densa e úmida, quebrada em pedaços por relâmpagos que desciam impiedosamente da escuridão que a tudo envolvia. O vento, em rajadas furiosas, espremia-se pelas frestas de portas e janelas, uivando desesperadamente pelos longos corredores, contaminando com seu hálito gélido a atmosfera fúnebre daquele lugar.

Tudo era solidão e abandono naquele velho e carcomido casarão. Nem mesmo os fantasmas que costumavam assombrar aquele lugar se dignaram aparecer naquela noite tempestuosa.

Dentro da mansão, que ameaçava ruir a cada ribombar dos trovões, um homem solitário ponderava serenamente se não seria esta a noite ideal para morrer.

Velho como tudo que havia ali, acompanhado apenas da tênue e bruxuleante chama de uma vela, ouviu, entre estrondos e relâmpagos, um estalido seco e cortante, como o som produzido por alguém pisando na tábua do assoalho próximo à porta da sala onde ele estava. Um frêmito percorreu sua espinha e os pêlos do corpo se eriçaram diante da perspectiva de haver mais alguém naquela casa.

Virou-se, tremulo, segurando o castiçal com uma das mãos e, levantando-o divisou um vulto à sua frente. Contrariando o que indicava o bom senso, com passos hesitantes, aproximou-se e distinguiu um homem sobriamente vestido, de feições severas e postura rígida. Ficaram ambos se fitando por instantes até que um arrepio de pavor percorreu-lhe o corpo todo fazendo tremeluzir ainda mais a chama da vela que segurava.

Lá fora a tempestade rugia furiosa e açoitava com violência as antigas paredes da mansão que demonstrava evidentes sinais de fadiga e submetia-se derrotada às forças naturais. Com a ajuda implacável do vento a água vencia os obstáculos e escorria fria pelas paredes molhando as quinquilharias e memórias amontoadas ali por anos a fio.

Sem perceber a derrota de sua fortaleza, ele continuava paralisado olhando fixamente o invasor sem acreditar no que via. Estava, inacreditavelmente, frente a frente consigo mesmo.

Há muito se habituara a conviver com fantasmas que assombravam velhas casas abandonadas e consciências culpadas, mas nunca enfrentara o fantasma de si mesmo. Questionou intimamente quem seria o fantasma ali; Aquela aparição elegantemente vestida, de aspecto dominante e olhar confiante, ou um velho pálido e vergado pelo tempo, enrolado em um puído robe de chambre, amargurado pelo abandono e entediado pela solidão.

Olhou novamente para os olhos da assombração e enxergou seus olhos de muitos anos atrás, quando mirava o futuro com otimismo e esperança. Compreendeu que o fantasma estava ali para mostrar-lhe o que fizera com seus planos, com suas crenças, com sua vida, enfim. Para mostrar-lhe quem ele fora e no que se tornara.

Assim como a mansão, seus móveis e utensílios, ele também não pertencia mais a este tempo. Tornaram-se todos anacrônicos.

Virou-se decidido e caminhou até o velho móvel de cuja gaveta sacou um revolver e lembrou-se de uma frase que ouvira em um filme: Morrer não é importante. Importante é como você morre.

Estufou o peito e endireitou sua postura, ajeitou o robe da melhor maneira que pode e ergueu altivamente o queixo. Mais uma vez olhou para si mesmo, desta vez com desdém; Havia novamente assumido o controle.

A trémula luz da vela iluminava o rosto de um homem quase feliz quando ele puxou o gatilho.

Lá fora um trovão medonho sacudiu a escuridão e ecoou indiferente pela noite afora.

Antes que o projétil atingisse o palato ele sentiu o cheiro penetrante da pólvora e tombou ensangüentado no chão encharcado da mansão. Uma misericordiosa lufada de vento apagou a débil chama da vela e a paz, finalmente, voltou a reinar naquele lugar.

quarta-feira, 15 de novembro de 2006

Para quem sabe ver, um rabisco é subtexto

Por Marco Túlio Costa, Escritor


O prefácio não é prefácil, pelo menos para mim. Parece um lance de humor o fato do Váscoli, que com um traço premeditado economiza mil palavras que poderiam ser ditas sobre um fato, pedir logo a mim, um escritor, que muitas vezes esbanja lá umas mil palavras para falar sobre um traço.
Interessante o fato de, no título, fazerem menção à História, pois à maioria das pessoas escapa o sentido duradouro, transcendente, histórico da charge, que é devorada no fast-food da informação cotidiana.
Vejam os jornais diários. As edições se sucedem mergulhando a todos num caldeirão de informações, fatos mal cozidos e escândalos bem temperados. Empanturradas de notícias, é nos bancos das praças, nas esquinas, nos balcões de botequins, aqui e ali, que as pessoas vão digerir isso tudo e tentar compreender seus próprios sentimentos sobre a sociedade, o mundo veloz e voraz.
Mas onde vamos captar, na imprensa, o sentimento geral a respeito do momento histórico, dos fatos marcantes estampados em manchetes e estendidos nas matérias? Abrimos os livros de História e, volta e meia, estão lá reproduzidas as charges que retrataram o sentimento, a reação de setores da sociedade a respeito de determinados eventos. A sátira, o humor, o deboche, presentes na charge, cumprem sua função de catarse, e ganham com o passar do tempo uma outra função, didática, esclarecedora, a respeito da relação de um povo com os fatos históricos.
Sob essa ótica (Ótica Oliveira, diria logo o Magela) a charge é a notícia em marcha-à-ré, da conseqüência ao fato. Primeiro eu berro, depois bato o martelo. Nasce na reação e leva a pensar sobre o fato. Nasce do público para o jornal e não vem do jornal para nós, como parece. Charge é notícia sobre o que sentimos, não é descoberta do mundo, mas encontro com o eu.
Sendo assim, a presença da charge do Váscoli, na Folha da Manhã, é nosso pequeno divã, revelador, espaço em que sacamos o quanto debochados nos portamos em relação a um fato, ou como fomos ácidos a respeito de outro. Por isso fez tanta falta quando se ausentou de nosso diário e foi tão festejado ao retornar.
Fazendo esse papel de mar que corre para o rio, que sobe cachoeira e vem para a fonte - que somos nós, os leitores - o Váscoli vem captando nossos sentimentos, transformando-os em traços e tiradas geniais, para se tornar um testemunho fundamental de nossa história: a história recente de nossa Passos, da região que gira em sua órbita, de Minas, do Brasil.
Por isso o título deste volume, tão aguardado por nós que sabíamos do projeto havia tantos anos, é também exato. Os traços que dão contorno à nossa comédia diária são parte de uma tirinha de jornal inacabada e inacabável, em que somos personagens e leitores, e a qual nos faz olhar para o passado com mais sensibilidade e tolerância. Compreendemos a força de nossos sentimentos, o ridículo de nossas convenções e rimos com indulgência de nossa natureza humana.
Para quem sabe ver a História, o traço marcante do Váscoli está cheio desse subtexto: mais que recordação de fatos históricos, já registrados nas matérias e colunas opinativas, é um acervo delicioso de nossa memória sentimental.